Incineração de resíduos: contexto e riscos associados

Por Marcelo Negrão e André Abreu de Almeida (Fundação France Libertés)

Introdução

Este texto é uma sintese de estudos conduzidos pela Fundação France Libertés sobre a questão dos impactos sociais, ecológicos e econômicos da incineração de resíduos sólidos. Estes estudos são baseados em pesquisas e analises realizadas em parceria com instituições acadêmicas, empresas privadas, ONGs e poder público e têm como objetivo enriquecer o debate ainda bastante incipiente no Brasil em torno da Incineração de resdíuos e seus diferentes impactos sobre a população e sobre o meio ambiente.

A incineração de resíduos sólidos, solução apresentada hoje no Brasil como alternativa “verde” e “sustentável” para a gestão do lixo das grandes metrópoles, já é praticada nos países chamados desenvolvidos há mais um século. Na Europa boa parte dos países praticam em níveis diferentes essa forma de eliminação de resíduos, sendo que a França destaca-se com um parque de quase 150 incineradores[1], gerenciados integralmente ou parcialmente pelo setor privado. Mas a solução industrial de queima do lixo, para além das aparências de “boa gestão” e de “modernidade industrial”, esconde uma série de paradoxos e de controvérsias que hoje são cada vez mais presentes na Europa mas ainda  pouco debatidas no Brasil.

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Incineração Do Lixo Municipal – Uma Solução Pobre Para o Século 21

Paul Connett (Abrelp)
Apresentação na 4ª Conferência Anual de
Administração Internacional de Lixo-para-Energia
24 e 25 de Novembro de 1998 – Amsterdã.

Resumo

Sobre o autor
O Dr. Paul Connett é professor titular de Química na “Saint Lawrence University”, em Cantão (Estado de Nova Iorque), onde ele ensina há 15 anos. Obteve o grau universitário em Ciências Naturais, na Universidade de Cambridge (Inglaterra) e o Ph.D. em Química na Faculdade de Dartmouth, nos EUA. Durante os últimos 14 anos ele pesquisou sobre assuntos de gerenciamento de lixo, com uma ênfase especial nos perigos gerados pela incineração e as alternativas mais seguras e mais sustentáveis da não-incineração.

Ele participou de numerosos simpósios internacionais sobre dioxinas e com seu colega, Tom Webster, apresentou seis artigos nesses simpósios que foram subseqüentemente publicados na revista “Chemosphere”. Ele fez mais de 1500 apresentações públicas sobre estes assuntos, em 48 estados nos EUA e 40 outros países. Com a sua esposa Ellen, edita o boletim “Waste not” (Lixo Não), que está em seu décimo segundo ano de publicação. Com Roger Bailey, professor de Belas Artes na “Saint Lawrence University”, produziu mais de 40 vídeos sobre gerenciamento de lixo, dioxinas e outros assuntos ambientais.

RESUMO

Longe de ser uma tecnologia provada universalmente, como defendem seus promotores, a incineração de lixo municipal com recuperação de energia foi uma vivência que depois de 20 anos deixou aos cidadãos dos países industrializados um legado de níveis inaceitavelmente altos de dioxinas e compostos a elas relacionados, nos alimentos, nos tecidos, em seus bebês e na vida silvestre. O autor argumenta que como a indústria tem lutado para tornar a incineração segura, eles têm, tal como a indústria de energia nuclear antes deles, se excluído do mercado. Além disso, como eles buscaram dispositivos de controle de poluição do ar para capturar os subprodutos extremamente tóxicos derivados da combustão, os resíduos resultantes têm se tornado mais problemáticos e caros de manusear, descartar e conter. Há ainda preocupações sobre a segurança dos incineradores, especialmente quando eles são construídos em países em desenvolvimento, que usando os incineradores não tenham os recursos para construir, operar ou os monitorar corretamente.

Entretanto, até mesmo se estas preocupações forem superadas, à medida que nós entramos no século vinte e um, o papel da incineração de lixo, com ou sem recuperação de energia, tornar-se-á menos e menos viável, tanto econômica quanto ambientalmente. Nossa tarefa futura será dominada por uma necessidade de encontrar formas sustentáveis de viver no planeta. Aqueles que têm se preocupado em fazer incineração segura, têm esbanjado sua ingenuidade de engenharia em questões erradas.

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